quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Mestre?! Não, Meritíssimo!

Veja abaixo texto de opinião que fiz sobre o caso Tiririca. Sei que está um pouco antigo, mas acho uma boa discussão e reflexão.


Nestas linhas não se falará sobre as más condições de trabalho e os péssimos salários dos professores, além da desvalorização ocorrida na carreira do magistério no âmbito social de forma generalizada. Não se falará também sobre a qualidade pífia da educação brasileira, medida por avaliações elaboradas de cima para baixo, sem que se ouça ou se inclua a comunidade escolar. Mas cabe chamar atenção à polêmica sobre o palhaço Tiririca [quase nobre Deputado Francisco Everardo Oliveira Silva]. Veja abaixo trecho da notícia do Estadão, do dia 11 de novembro:

O presidente do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), desembargador Walter de Almeida Guilherme, disse hoje que o deputado eleito Francisco Everardo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca (PR), conseguiu ler e escrever o que foi pedido no teste. Indagado se o deputado sabe realmente ler e escrever, o desembargador disse que seria leviano de sua parte se antecipar sobre o assunto. "É o juiz quem vai responder sobre isso."

Atenção às aspas. E atenção igualmente ao fato de que o teste aplicado em Tiririca era para verificar, comprovar, atestar etc. se o candidato eleito pelo PR realmente sabe ler e escrever, condição mínima para ser postulante a um cargo eletivo.

Consideramos as seguintes hipóteses: Se o palhaço fosse acusado de ter incapacidade mental para o cargo, então se chamaria um médico psiquiatra que, após uma bateria de exames, remeteria um laudo ao juiz do caso. Nunca o meritíssimo poderia avaliar a capacidade mental de um réu. Em outra situação, se o futuro deputado fosse acusado de subornar impostos, qualquer juiz de direito acataria a acusação com documentos comprobatórios emitidos pela Receita Federal ou outro órgão competente. Em uma terceira hipótese, Tiririca fosse acusado de falsidade ideológica, como se está sendo feito pela promotoria do caso, uma perícia técnica poderia comprovar se o documento entregue ao TRE que comprova o grau de instrução de Tiririca é verdadeiro.

Mas quando se trata de comprovar se o cidadão é alfabetizado perante a justiça, o próprio juiz aplica o teste e diz se a pessoa tem ou não proficiência em leitura e escrita. Por que não se convoca um profissional capacitado, com formação específica para este fim? Será que a justiça e os magistrados se esquecem que há professores das séries iniciais e aqueles formados em Língua Portuguesa para essa finalidade?


Não é de se espantar que em cursos de Direito, as aulas de Português são ministradas por professores de Direito e não da área de Letras. Daí se vê o porquê do arcaísmo com que profissionais da área tratam a língua. Não como forma de distanciamento, polidez e formalidade, mas como forma de perpetuação das distâncias entre a justiça conduzida ao rico e a justiça inacessível ao pobre. Incluí-se no arcabouço de mazelas da profissão de professor a falta de respeito da Justiça Brasileira.

Um comentário:

Kennedy disse...

Maravilhoso texto!

Concordo em absoluto. Poucas pessoas conseguem ver o efeito (negativo) que essa distância provoca e reforça entre uma e outra classe da sociedade.

Muito bom texto. Vale muito a pena sua reflexão.